{"id":366,"date":"2018-12-21T04:52:32","date_gmt":"2018-12-21T04:52:32","guid":{"rendered":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/?p=366"},"modified":"2019-01-31T22:18:53","modified_gmt":"2019-01-31T22:18:53","slug":"os-guajajara-short-paper-uma-exploracao-narrativa-pt-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/os-guajajara-short-paper-uma-exploracao-narrativa-pt-3\/","title":{"rendered":"Os Guajajara: [Di\u00e1rio de Viagem] Uma Explora\u00e7\u00e3o Narrativa, Pt. 3"},"content":{"rendered":"<p>25 de dezembro de 2017 \u2013 Povoado Cana-Brava, Munic\u00edpio de Maranh\u00e3o<\/p>\n<p>Boa noite, pessoal. Eu admito que, neste momento, estou um pouco triste; j\u00e1 chegou a hora de come\u00e7ar a preparar-me para a minha partida da comunidade. Daqui h\u00e1 uns dias, estarei a caminho de S\u00e3o Paulo, uma viagem que me levar\u00e1 ao outro Brasil, ao Brasil que trocou as tribos e a terra pelas cidades e o cimento. Em vez de preparar as minhas malas, entretanto, decidi oferecer-lhes um pequeno resumo de tudo que tem acontecido desde o meu \u00faltimo post.<\/p>\n<p>Se bem me lembro, eu escrevi antes de assistir \u00e0quela reuni\u00e3o dos caciques e outros indiv\u00edduos importantes na comunidade local. Como sempre, o Ze\u2019e n\u00e3o me desapontou; este evento foi incr\u00edvel! O meu tempo com o seu povo mostrou-me que os Guajajara, como todas as outras comunidades, tem a sua pr\u00f3pria maneira de fazer as coisas; cada grupo ind\u00edgena sobrevive no mundo contempor\u00e2neo usando as suas pr\u00f3prias tradi\u00e7\u00f5es, estrat\u00e9gias, e atitudes, uma conclus\u00e3o ostensivamente \u00f3bvia, mas que eu n\u00e3o tinha considerado antes de visitar a Cana-Brava. Entretanto, esta confer\u00eancia desafiou os meus preconceitos ainda mais.<\/p>\n<p>Depois de passar uma semana aqui, eu pensava que sabia tudo que havia para saber sobre a comunidade Guajajara; eu presumi que todas as tribos dessa fam\u00edlia fossem mais ou menos iguais, por exemplo, e que as minhas experi\u00eancias me tinham conferido uma esp\u00e9cie de autoridade sobre o tema. Mas essa reuni\u00e3o mostro -me que eu estava muito enganado. Eu conheci caciques de todas as regi\u00f5es do Maranh\u00e3o. Havia representantes das Terras Ind\u00edgenas maiores, como a Ararib\u00f3ia (composto de 413.288 hectares), e membros das comunidades mais pequenas, como a de Morro Branco (medindo s\u00f3 49 hectares).<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> E essa foi s\u00f3 a primeira diferen\u00e7a que eu observei; a minha noite foi repleta de conversas, nas quais eu aprendi sobre os costumes e valores, que distinguem as m\u00faltiplas comunidades Guajajara.<\/p>\n<p>Um elemento que me interessou em particular foi a quest\u00e3o dos xam\u00e3s. Edison, um cacique da Terra de Rodeador, explicou-me que o xamanismo est\u00e1 desaparecendo de muitos povos ind\u00edgenas, tanto no Maranh\u00e3o como em outros estados; esse problema tem sido muito dif\u00edcil para os Guajajara, que t\u00eam uma cultura vinculada \u00e0 natureza e a entidades sobrenaturais.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> Interessante, essa hist\u00f3ria xam\u00e2nica est\u00e1 muito ligada ao sexo masculino, um sistema que talvez venha contribu\u00eddo para a sua diminui\u00e7\u00e3o. Eu achei que o ato de abrir essa tradi\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres poderia ajudar a reestabelecer o xamanismo hoje em dia, mas, obviamente, n\u00e3o me competia mencionar isso a um grupo de caciques!<\/p>\n<p>O resto do dia procedeu dessa forma, ao menos at\u00e9 o jantar. Durante a refei\u00e7\u00e3o, composta de arroz e car\u00e1 (um tipo de peixe), eu pude falar com mais pessoas, aprendendo ainda mais sobre os seus povos.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> Mas a maior surpresa chegou durante a sobremesa, quando Ze\u2019e dirigiu-se \u00e0 assembleia. Os seus primeiros pontos foram normais: introduziu-se, falou sobre os objetivos da confer\u00eancia, etc. Mas, mesmo no fim do seu discurso, ele come\u00e7ou a falar sobre mim. Chamando-me de <em>neriqu\u00ea-ire<\/em>, uma palavra que significa \u201cirm\u00e3o\u201d, em Tupi-Guarani, Ze\u2019e elogiou os meus esfor\u00e7os para interagir e assimilar \u00a0a sua fam\u00edlia, levando a um momento muito emocional para mim.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas meses atr\u00e1s, eu n\u00e3o conhecia os Guajajara; eu nem sabia que eles existiam, muito menos que eles s\u00e3o uma comunidade am\u00e1vel e atenciosa. Nesse momento de reflex\u00e3o, tendo s\u00f3 uns dias restantes com o Ze\u2019e e a sua fam\u00edlia, eu simplesmente espero que eu um dia eu possa retribuir `a sua generosidade e ajud\u00e1-los a manterem essa vida preciosa que, infelizmente, n\u00e3o ser\u00e1 a mesma quando eu voltar.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> &#8220;Guajajara,&#8221; Povos Ind\u00edgenas do Brasil, accessed November 29, 2018, https:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/Povo:Guajajara.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ibid.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Ibid.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> \u201cVocabul\u00e1rio Guajajara,\u201d Linguas Ind\u00edgenas Brasileiras, accessed November 29th, 2018, <a href=\"http:\/\/www.geocities.ws\/indiosbr_nicolai\/guajajara2.html\">http:\/\/www.geocities.ws\/indiosbr_nicolai\/guajajara2.html<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>25 de dezembro de 2017 \u2013 Povoado Cana-Brava, Munic\u00edpio de Maranh\u00e3o Boa noite, pessoal. Eu admito que, neste momento, estou um pouco triste; j\u00e1 chegou a hora de come\u00e7ar a preparar-me para a minha partida da comunidade. Daqui h\u00e1 uns dias, estarei a caminho de S\u00e3o Paulo, uma viagem que me levar\u00e1 ao outro Brasil,<\/p>\n<p><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/os-guajajara-short-paper-uma-exploracao-narrativa-pt-3\/\">Continue Reading<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":806,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[13],"class_list":["post-366","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-guajajara","post-preview"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/366","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/806"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=366"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/366\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":830,"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/366\/revisions\/830"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=366"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=366"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=366"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}