{"id":358,"date":"2018-12-21T04:42:43","date_gmt":"2018-12-21T04:42:43","guid":{"rendered":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/?p=358"},"modified":"2019-01-05T22:46:48","modified_gmt":"2019-01-05T22:46:48","slug":"os-guajajara-short-paper-uma-exploracao-narrativa-pt-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/os-guajajara-short-paper-uma-exploracao-narrativa-pt-1\/","title":{"rendered":"Os Guajajara: [Di\u00e1rio de Viagem] Uma Explora\u00e7\u00e3o Narrativa, Parte 1"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"text-decoration: underline\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/span><\/p>\n<p>Bem-vindos ao meu di\u00e1rio de viagem! Eu me chamo Maur\u00edcio, e estudo no Instituto de Bioci\u00eancias, na Universidade de S\u00e3o Paulo, com um foco especial nos departamentos de Ecologia e Bot\u00e2nica. Esse ano, eu recebi uma subven\u00e7\u00e3o para come\u00e7ar a minha tese. Dado o meu interesse na sustentabilidade e nas m\u00faltiplas formas em que o Estado brasileiro tem ignorado a sua import\u00e2ncia, eu decidi usar esse dinheiro para estudar a forma com que outras comunidades enfrentam o desafio da conserva\u00e7\u00e3o. A primeira dessas comunidades ser\u00e1 um grupo de nativos Guajajara, situado em Cana-Brava, uma aldeia pequena no estado do Maranh\u00e3o, e que fica h\u00e1 apenas 15 quil\u00f4metros da costa norte do Brasil.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> Eu ouvi dizer que este povo tem uma rela\u00e7\u00e3o bastante \u00fanica com o meio-ambiente, ent\u00e3o, conclu\u00ed que eles seriam um ponto de come\u00e7o \u00f3timo! Gra\u00e7as ao meu amigo que tem fam\u00edlia nessa \u00e1rea, o cacique j\u00e1 aprovou a visita e est\u00e1 preparando a aldeia para a minha chegada nesta ter\u00e7a-feira. Essa viagem n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil (quarenta horas de carro n\u00e3o \u00e9 brincadeira), mas eu estou otimista com respeito \u00e0 minha pesquisa.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> Eu s\u00f3 espero que eles tenham a mesma atitude a respeito da minha presen\u00e7a na sua comunidade.<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline\">29 de novembro de 2017 \u2013 Povoado Cana-Brava, Munic\u00edpio de Maranh\u00e3o<\/span><\/p>\n<p>Bom dia, pessoal! Eu estou escrevendo esta entrada no come\u00e7o do meu segundo dia entre os Guajajara. Infelizmente, o meu hor\u00e1rio de ontem esteve t\u00e3o cheio que n\u00e3o houve oportunidade de documentar as minhas primeiras experi\u00eancias em Cana-Brava; espero que a minha mem\u00f3ria n\u00e3o falhe agora!<\/p>\n<p>Eu terminei o \u00faltimo segmento da minha viagem anteontem por volta de onze da noite. Quando cheguei no povoado, o cacique j\u00e1 estava \u00e0 minha espera. Este l\u00edder, um homem alto e bastante moreno que se chama Ze\u2019e<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, recebeu-me com muito prazer e levou-me para a sua casa, onde tinha preparado um quarto para mim. Naquele momento, eu estava t\u00e3o cansado que teria dormido na rua se fosse a minha \u00fanica op\u00e7\u00e3o! Felizmente, n\u00e3o foi preciso fazer isso, e assim terminou a minha primeira noite em Cana-Brava.<\/p>\n<p>O dia seguinte come\u00e7ou cedo, logo ao nascer do sol; depois de um pequeno-almo\u00e7o composto de arroz e abobrinha, dois produtos cultivados pela pr\u00f3pria comunidade, o Ze\u2019e insistiu em levar-me num tour guiado pela aldeia e os seus arredores<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Sendo o \u00fanico l\u00edder deste povo, o Ze\u2019e normalmente est\u00e1 muito ocupado com a supervis\u00e3o dos seus membros e da log\u00edstica cotidiana. Por\u00e9m, como \u00e9 raro eles terem visitas interessadas nas facetas agr\u00edcolas e sustent\u00e1veis de sua cultura, ele decidiu tirar um dia de folga para mim.<\/p>\n<p>N\u00f3s passamos a primeira metade deste dia caminhando de casa em casa, falando com os membros da comunidade. Tradicionalmente, explicou-me o Ze\u2019e, os povos Guajajara est\u00e3o divididos em fam\u00edlias nucleares, cada uma delas ocupando uma resid\u00eancia na aldeia.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> Eu apreciei muito esta oportunidade para conhecer as pessoas que comp\u00f5em este povo; como eu nasci e passei os primeiros vinte e dois anos da minha vida na cidade de S\u00e3o Paulo, nunca tinha conhecido um membro ativo de uma comunidade ind\u00edgena, muito menos fam\u00edlias inteiras. Um aspecto destas reuni\u00f5es que me surpreendeu foi o tratamento holisticamente am\u00e1vel que eu vivenciei. Sendo uma pessoa branca, sem conex\u00e3o com o mundo ind\u00edgena, eu pensava que esta gente ia ficar desconfiada de mim; afinal de contas, eu n\u00e3o pertencia ao seu mundo, e o povo Guajajara carrega na mem\u00f3ria uma hist\u00f3ria tr\u00e1gica devido a pessoas parecidas comigo. Mas, gra\u00e7as ao meu interesse no meio ambiente, ou talvez \u00e0 convic\u00e7\u00e3o do cacique, eles receberam-me de bra\u00e7os abertos, uma experi\u00eancia inesperada.<\/p>\n<p>Depois desta s\u00e9rie de reuni\u00f5es, tive a oportunidade de come\u00e7ar a minha pesquisa com a ajuda de alguns agricultores ind\u00edgenas. Segundo a tradi\u00e7\u00e3o dos Guajajara, a maior parte da agricultura realiza-se em casa; normalmente, cada fam\u00edlia possui um terreno entre 1 hectare e 4 hectares, no qual podem cultivar o que quiserem.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> Mas, como Cana-Brava \u00e9 maior que a aldeia Guajajara t\u00edpica, tamb\u00e9m dedicaram uma por\u00e7\u00e3o do seu territ\u00f3rio a uma ro\u00e7a comunal. Foi essa terra, e o edif\u00edcio utilizado para o dep\u00f3sito das colheitas, que Ze\u2019e me mostrou.<\/p>\n<p>Como ainda nem terminou o m\u00eas de novembro, falta muito tempo para a maior parte das safras crescerem; fazendeiros normalmente esperam at\u00e9 esta etapa para plantarem a soja e o milho, e os Guajajara devem fazer o mesmo com a mandioca, o amendoim, o arroz, a ab\u00f3bora, e as outras comidas das quais eles se sustentam.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> Al\u00e9m disso, o Ze\u2019e tamb\u00e9m me mostrou uma planta que eu nunca tinha visto (uma ocasi\u00e3o especial, considerando a minha especializa\u00e7\u00e3o!). Esta esp\u00e9cie, chamada de <em>canapu<\/em> pelos Guajajara, \u00e9 um arbusto com frutas amarelas, medindo uns 50 ou 60 cent\u00edmetros de altura. Na verdade, eu j\u00e1 tinha visto esta planta durante o nosso passeio; a aldeia est\u00e1 <u>cheia<\/u> delas! Aparentemente, os Guajajara n\u00e3o comem o <em>canapu<\/em> porque, segundo a sua religi\u00e3o, os seus antepassados comeram da sua fruta antes de que Ma\u00edra, o seu criador, lhes conferisse conhecimento sobre a agricultura.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> N\u00e3o pensava que ia aprender tanto sobre os mitos deste povo (e logo no primeiro dia tamb\u00e9m!), mas foi uma experi\u00eancia bastante interessante com certeza.<\/p>\n<p>Durante algum tempo, ent\u00e3o, ficamos no terreno, falando sobre tudo e mais alguma coisa: a rela\u00e7\u00e3o entre os Guajajara e o meio-ambiente, o seu papel como cacique na promo\u00e7\u00e3o de uma mentalidade ecol\u00f3gica, e a lista continua! Assim foram as horas passando, eu aprendendo n\u00e3o s\u00f3 sobre a bot\u00e2nica do Estado de Maranh\u00e3o, mas tamb\u00e9m desta comunidade simultaneamente enorme e t\u00e3o tragicamente invis\u00edvel. \u00c9 claro que eles est\u00e3o c\u00e1; s\u00e3o o maior grupo ind\u00edgenano Brasil, e t\u00eam uma presen\u00e7a especialmente marcada no nordeste do pa\u00eds.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a> Mas, apesar disso tudo, eu n\u00e3o sabia nada sobre os meus vizinhos ind\u00edgenas antes deste primeiro dia, e suspeito que a mesma ignor\u00e2ncia (intencional ou n\u00e3o) caracteriza a muitos outros membros da popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Assim, o meu primeiro dia em Cana-Brava deixou-me com um objetivo duplo para o resto do meu tempo aqui. Por um lado, obviamente, continuarei a minha pesquisa. Eu vou ter que escrever uma tese em algum momento, ent\u00e3o \u00e9 melhor eu preparar-me agora! Por outro lado, entretanto, eu tamb\u00e9m quero aprender mais sobre estas pessoas que me receberam, que trataram a um desconhecido como se fosse da fam\u00edlia. Eu espero que este segundo dia traga at\u00e9 mais oportunidades para alcan\u00e7ar esse objetivo; de qualquer forma, voc\u00eas ser\u00e3o os primeiros a saber! O Ze\u2019e deve estar \u00e0 minha espera para tomar o caf\u00e9 da manh\u00e3, ent\u00e3o vou concluir esta primeira entrada aqui. At\u00e9 j\u00e1!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline\">Nota:<\/span> Eu fiz o poss\u00edvel para s\u00f3 utilizar informa\u00e7\u00e3o (geogr\u00e1fica e biogr\u00e1fica em rela\u00e7\u00e3o aos Guajajara) que fosse correta e corrente. Eu tive alguma dificuldade em encontrar certas pe\u00e7as de informa\u00e7\u00e3o, e acabei por usar a minha imagina\u00e7\u00e3o nestes casos. Os casos s\u00e3o os seguintes:<\/p>\n<ul>\n<li>Eu n\u00e3o encontrei uma aldeia especificamente Guajajara, ent\u00e3o escolhi a povoada Cana-Brava, que est\u00e1 situada numa regi\u00e3o com muitos destes ind\u00edgenas<\/li>\n<li>Eu presumi que existe nessa aldeia um cacique, e eu lhe dei um nome que achei apropriado<\/li>\n<li>Eu n\u00e3o sei se existe uma terra cultivada central nessa aldeia, mas inclui-a por raz\u00f5es narrativas<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline\">Bibliografia:<\/span><\/p>\n<ol>\n<li>&#8220;Guajajara.&#8221; Povos Ind\u00edgenas do Brasil. Accessed September 26, 2018. <a href=\"https:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/Povo:Guajajara\">https:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/Povo:Guajajara<\/a>.<\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"text-decoration: underline\">Notas de rodap\u00e9:<\/span><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Eu encontrei esta aldeia usando a aplica\u00e7\u00e3o de Google Maps.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Eu tamb\u00e9m usei o Google Maps para fazer esta calcula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Baseei o seu nome na palavra Guajajara <em>ze\u2019egete<\/em>, o nome que eles deram \u00e0 sua l\u00edngua e que significa \u201cfala boa.\u201d Achei apto para esta personagem, como ele \u00e9 uma esp\u00e9cie de guia para o Maur\u00edcio, transmitindo informa\u00e7\u00e3o como um idioma.<em> (bom!)<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> &#8220;Guajajara,&#8221; Povos Ind\u00edgenas do Brasil, accessed September 26, 2018, https:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/Povo:Guajajara.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Ibid.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Ibid.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Ibid.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Ibid.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Ibid.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o Bem-vindos ao meu di\u00e1rio de viagem! Eu me chamo Maur\u00edcio, e estudo no Instituto de Bioci\u00eancias, na Universidade de S\u00e3o Paulo, com um foco especial nos departamentos de Ecologia e Bot\u00e2nica. Esse ano, eu recebi uma subven\u00e7\u00e3o para come\u00e7ar a minha tese. 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