{"id":737,"date":"2019-01-31T02:51:26","date_gmt":"2019-01-31T02:51:26","guid":{"rendered":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/?page_id=737"},"modified":"2022-11-07T17:15:33","modified_gmt":"2022-11-07T17:15:33","slug":"uma-reflexao-sobre-metodos-escritos-em-um-contexto-indigena","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/outros-textos\/uma-reflexao-sobre-metodos-escritos-em-um-contexto-indigena\/","title":{"rendered":"Uma Reflex\u00e3o sobre M\u00e9todos Escritos em um Contexto Ind\u00edgena"},"content":{"rendered":"<p>Blogs, Di\u00e1rios, e o Povo Guajajara:<\/p>\n<p>Paulo Fraz\u00e3o<\/p>\n<p>Quando eu estava a escolher minhas aulas para este semestre, eu queria passar esses tr\u00eas meses estudando algo diferente, ficando cara a cara com uma perspetiva ou ponto de vista que eu nunca tivesse considerado antes. Deste modo, a aula da Professora Librandi, intitulada \u201c<em>Topics in Brazilian Cultural and Social History \u2013 Indigenous Brazil<\/em>,\u201d pareceu-me a op\u00e7\u00e3o perfeita. Apesar de estar buscando um certificado em estudos portugueses e, por isso, j\u00e1 ter completado v\u00e1rias aulas neste campo, eu nunca tinha tido a oportunidade de engajar-me com a voz ind\u00edgena; a maioria das minhas experi\u00eancias no departamento focou-se em contextos europeus ou africanos, deixando esses povos nativos sem representa\u00e7\u00e3o (presumidamente sem querer). Por\u00e9m, essa classe prometeu preencher essa lacuna usando leituras, filmes, convidados, e outros meios para ajudar-nos a compreender a condi\u00e7\u00e3o ind\u00edgena.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia para desenvolver esta empatia que mais me interessou, entretanto, foi a escrita. Ao contr\u00e1rio dos outros exerc\u00edcios (como as leituras e os filmes), que eram fascinantes, mas intrinsicamente passivos, a escritura oferecia um m\u00e9todo mais ativo e pessoal para um indiv\u00edduo envolver-se com os estudos ind\u00edgenas. Ao longo do semestre, eu completei uma s\u00e9rie de blogs sobre o povo Guajajara, um grupo ind\u00edgena que vive primariamente no estado do Maranh\u00e3o, no nordeste do Brasil. Nestes posts, eu compartilhei informa\u00e7\u00e3o, not\u00edcias, e reflex\u00f5es sobre essa comunidade regularmente, um processo que me ajudou a melhor entender as nuances de sua situa\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, eu tamb\u00e9m constru\u00ed uma cole\u00e7\u00e3o de tr\u00eas di\u00e1rios ficcionais, nos quais eu assumo a personagem de Maur\u00edcio, um estudante da Universidade de S\u00e3o Paulo, que acaba por viver com uma comunidade Guajajara durante uns meses. Apesar de pertencer \u00e0 esfera da escrita e de possuir v\u00e1rios outros elementos parecidos com os blogs acima referidos, este exerc\u00edcio narrativo possibilitou que eu abordasse o tema ind\u00edgena de uma maneira significativamente diferente.<\/p>\n<p>O conjunto de paralelos e disparidades entre estes dois tipos de obra escrita ser\u00e1 o foco prim\u00e1rio deste trabalho final. Ao longo deste ensaio, eu explorarei as rela\u00e7\u00f5es entre esses modos de escrita, considerando tanto as diferen\u00e7as como as semelhan\u00e7as para melhor entender as oportunidades \u00fanicas que cada meio oferece no processo de escrever sobre a condi\u00e7\u00e3o ind\u00edgena no mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Antes de entrar nessa an\u00e1lise, entretanto, seria melhor oferecer um pouco de contexto para ambos os trabalhos. Em termos log\u00edsticos, os blogs e os ensaios narrativos s\u00e3o muito diferentes. Por um lado, os <em>posts<\/em> s\u00e3o curtos e regulares; eu postei uma entrada nova quase todas as semanas, criando uma rela\u00e7\u00e3o complexa com os meus leitores. Enquanto a frequ\u00eancia dos textos parece convidar os leitores a aprenderem um pouco sobre as minhas opini\u00f5es e as minhas predisposi\u00e7\u00f5es (criando \u201c<em>common ground<\/em>\u201d com a audi\u00eancia, como explica Michelle Gumbrecht), a sua brevidade cria uma linha na areia, asseverando alguma dist\u00e2ncia entre as duas partes (Gumbrecht 3). De outro lado, as narrativas foram muito mais longas e muito menos frequentes, em m\u00e9dia. Esta combina\u00e7\u00e3o estabelece uma din\u00e2mica mais pessoal do que os blogs. O seu tamanho oferece ao escritor muito espa\u00e7o para contribuir com elementos e detalhes pessoais, e as semanas separando os textos confere ao leitor bastante tempo para refletir sobre o seu conte\u00fado e internalizar os resultados desse processo. \u00c9 interessante notar, tamb\u00e9m, que ao fim do dia a audi\u00eancia dos dois projetos \u00e9 a mesma; eu postei os blogs e as narrativas no website que n\u00f3s constru\u00edmos no fim do semestre. Obviamente, entretanto, os efeitos que estes trabalhos t\u00eam s\u00e3o muito diferentes, ao menos em refer\u00eancia ao seu comprimento e frequ\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m existem outros v\u00ednculos entre a narrativa e o \u201c<em>blogging<\/em>\u201d mais profundos, que revelam oportunidades para indiv\u00edduos (como os estudantes na minha aula) que querem engajar-se com popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgena. A primeira destas rela\u00e7\u00f5es \u00e9 o controle profundo que ambos os meios oferecem \u00e0s pessoas que participam neles, primariamente ao escritor. Escrever \u00e9 um ato generativo; independentemente do conte\u00fado que o escritor cria, ele produz algo que (com sorte) n\u00e3o existia antes, deixando uma marca f\u00edsica da sua presen\u00e7a e da sua perspetiva. No seu artigo, <em>\u201cBlogging by the rest of us<\/em>,\u201d Diane J. Schiano discute a funcionalidade de <em>blogging<\/em> como \u201c<em>a form of online personal journaling<\/em>\u201d. Schiano nota que, apesar de ser uma entidade p\u00fablica, a maior parte dos blogs tem \u201c<em>very few occasional readers<\/em>;\u201d ao inv\u00e9s, muitas vezes o escritor publica as suas entradas simplesmente como declara\u00e7\u00e3o que <em>\u201cblogito ergo sum<\/em>:\u201d \u201c<em>I blog therefore I am<\/em>\u201d (Schiano 1145). Neste espa\u00e7o simultaneamente p\u00fablico e privado, o autor confirma que ele est\u00e1 afetando o mundo, embora seja de uma forma usualmente menor.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, estes blogs tamb\u00e9m conferem um certo controle sobre a imagem p\u00fablica do autor, ao menos segundo Michelle Gumbrecht. No seu artigo, intitulado <em>\u201cBlogs as \u2018Protected Space\u2019<\/em>,<em>\u201d <\/em>ela observa que blogueiros podem aproveitar a natureza de seu blog para transmitirem opini\u00f5es e uma personalidade que n\u00e3o \u00e9 a sua. Na maior parte dos casos, a audi\u00eancia que segue um blog pode ser dividida em dois grupos: aqueles indiv\u00edduos que t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o profunda com o escritor, e por isso querem apoi\u00e1-lo, e aquelas pessoas que simplesmente t\u00eam algum interesse no material que o autor discute. Esta dualidade facilita a constru\u00e7\u00e3o de um \u201c<em>protected space<\/em>,\u201d onde o autor sente-se confort\u00e1vel publicando qualquer coisa, seja verdade ou mentira; os seus amigos o apoiam e o resto n\u00e3o tem, em teoria, a motiva\u00e7\u00e3o para tentar corrigi-lo (Gumbrecht 3). Na verdade, este resultado parece-me um pouco improv\u00e1vel, principalmente quando se considera a import\u00e2ncia do politicamente correto ou a press\u00e3o para desenvolver uma m\u00eddia honesta no mundo contempor\u00e2neo. Por\u00e9m, \u00e9 uma possibilidade que existe e, portanto, uma indica\u00e7\u00e3o adicional do n\u00edvel de controle que este meio online poderia permitir ao autor.<\/p>\n<p>Interessantemente, o mesmo potencial existe na narrativa, devido primariamente \u00e0 incerteza que existe neste meio. Os autores, especialmente aqueles que t\u00eam como objetivo criar uma obra de fic\u00e7\u00e3o, t\u00eam uma certa liberdade art\u00edstica; eu, por exemplo, inventei todas as personagens no meu trabalho enquanto tentei manter a autenticidade hist\u00f3rica dos detalhes antropol\u00f3gicos. Entretanto, esta leni\u00eancia pode ser abusada para mascarar ignor\u00e2ncia ou desonestidade, at\u00e9 mais do que no caso dos blogs.<\/p>\n<p>Afortunadamente, este controle sobre as impress\u00f5es do leitor pode ser utilizado de uma forma positiva. Ultimamente, a quest\u00e3o ind\u00edgena tem sofrido muito no Brasil. Al\u00e9m da incurs\u00e3o de madeireiros e garimpeiros na sua terra e a viol\u00eancia impune que eles t\u00eam utilizado para perpetrar essa invas\u00e3o, o pr\u00f3prio presidente est\u00e1 contra os direitos ind\u00edgenas tamb\u00e9m. Apesar de ter ganho a presid\u00eancia, Jair Bolsonaro tem a reputa\u00e7\u00e3o de atacar aqueles indiv\u00edduos que n\u00e3o apoiam a sua miss\u00e3o e interesses; em uma entrevista realizada em 1998, por exemplo, ele declarou que foi uma \u201cpena que a cavalaria brasileira n\u00e3o tenha sido t\u00e3o eficiente quanto a americana, que exterminou os \u00edndios\u201d (Survival International). Este homem, como muitos outros, tem abusado de sua posi\u00e7\u00e3o influente para tentar destruir a opini\u00e3o p\u00fablica sobre as comunidades ind\u00edgenas. Meios como estas narrativas e blogs pessoais, ent\u00e3o, oferecem uma oportunidade para combater estes esfor\u00e7os. Obviamente, existe o perigo supracitado de o autor misturar o real com a fantasia, falando por estes povos que ele quer defender. Eu tive que negociar este risco nas minhas pr\u00f3prias narrativas. No final do primeiro cap\u00edtulo da hist\u00f3ria, a minha personagem nota que os Guajajara \u201ctrataram a [ele] como se fosse da fam\u00edlia.\u201d Na realidade, entretanto, pode n\u00e3o existir esta cordialidade; talvez a s\u00e9rie de incurs\u00f5es, amea\u00e7as, e mortes tenha transformado a sua afabilidade em trepida\u00e7\u00e3o. Mas, ao fim do dia, esta incerteza \u00e9 um dos perigos que qualquer autor escrevendo sobre estas comunidades tem que negociar. Ambos os meios t\u00eam o potencial de moldar a opini\u00e3o p\u00fablica de uma forma positiva (com suficiente esfor\u00e7o e bastante sorte), mas sempre temos que asseverar que a mensagem que compartilhamos n\u00e3o tenta abafar o som da voz ind\u00edgena. (muito bem!)<\/p>\n<p>Outra similaridade entre as narrativas e os blogs \u00e9 o potencial para a aprendizagem que os acompanha. Obviamente, um dos objetivos prim\u00e1rios de ambos os trabalhos \u00e9 a exposi\u00e7\u00e3o de ideias, fatos, e atitudes novas \u00e0s suas audi\u00eancias. Na minha obra narrativa, por exemplo, eu tentei incluir fatos interessantes sobre os Guajajara, como as comidas que eles cultivam (mandioca, amendoim, arroz, etc.) e as \u00e1reas onde eles moram hoje em dia; ao mesmo tempo, os blogs iniciais cont\u00eam at\u00e9 mais fatos, como os primeiros que focaram menos nas minhas opini\u00f5es em favor da informa\u00e7\u00e3o que j\u00e1 existia sobre este povo (Povos Ind\u00edgenas do Brasil). Estes trabalhos abrangem muita informa\u00e7\u00e3o cultural tamb\u00e9m. Al\u00e9m do contexto que os fatos supracitados ofereceram \u00e0 minha narrativa, por exemplo, eu decidi incluir elementos menos tang\u00edveis, como a pr\u00f3pria linguagem dos Guajajara. S\u00e3o elementos desta natureza, mais din\u00e2micos e, como resultado, mais fascinantes, que me levaram ~a outra realiza\u00e7\u00e3o: os leitores n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos que aprendem e crescem com estes trabalhos.<\/p>\n<p>Normalmente, as tarefas designadas em um curso t\u00eam como objetivo o desenvolvimento do estudante em termos das suas habilidades ou conhecimento de um certo assunto. Neste caso, entretanto, com as narrativas e os blogs, eu acabei por internalizar coisas um pouco diferentes. No meu conto, em primeiro lugar, eu aprendi bastante sobre a l\u00edngua Guajajara, como notei acima. Um membro da fam\u00edlia lingu\u00edstica Tupi-Guarani, eles chamam o seu idioma de <em>ze\u2019egete<\/em>, ou \u201cfala boa,\u201d informa\u00e7\u00e3o que foi inclu\u00edda na primeira entrada no meu blog. Obviamente, ent\u00e3o, este blog ofereceu-me a oportunidade de explicar certos elementos contextuais desta l\u00edngua aos leitores. Mas, gra\u00e7as \u00e0 criatividade que elas possibilitam, as narrativas acabaram por funcionar como uma esp\u00e9cie de tela, onde eu pude p\u00f4r o vocabul\u00e1rio Guajajara em pr\u00e1tica. No terceiro cap\u00edtulo, um cacique Guajajara chama o protagonista de \u201cirm\u00e3o;\u201d mas, para enfatizar at\u00e9 mais o v\u00ednculo entre eles, eu queria usar o termo que se usaria numa comunidade Guajajara hoje em dia. Assim, eu comecei um processo de pesquisa, procurando em dicion\u00e1rios Guajajara (que, infelizmente, tinham s\u00f3 as palavras mais b\u00e1sicas) at\u00e9 encontrar o termo correto: <em>neriqu\u00ea-ire<\/em> (L\u00ednguas Ind\u00edgenas Brasileiras)<em>.<\/em> Este objetivo simples de usar s\u00f3 uma palavra Guajajara de uma forma criativa resultou em uma investiga\u00e7\u00e3o que durou quase uma hora, na qual eu tive a oportunidade de estudar os padr\u00f5es desta l\u00edngua com mais detalhe e, no fim, adapt\u00e1-la para comunicar a minha pr\u00f3pria mensagem. Apesar de abordarem o mesmo assunto idiom\u00e1tico, ent\u00e3o, a narrativa ofereceu-me uma experi\u00eancia muito mais pessoal e marcada que os blogs a este respeito. (muito bem!)<\/p>\n<p>A raz\u00e3o para esta disparidade em profundidade, entretanto, \u00e9 outra quest\u00e3o interessante. A hip\u00f3tese que me pareceu mais justific\u00e1vel atribui o poder emocional de minha experi\u00eancia no pr\u00f3prio processo narrativo. No seu livro, \u201c<em>Applied Imagination \u2013 Principles and Procedures of Creative Writing<\/em>,\u201d Alex Osborn declara que \u201c<em>Civilization, itself, is the product of creative thinkin<\/em><em>g<\/em>;\u201d citando John Masefield, ele nos lembra que \u201cimagination has made life on this planet an intense practice of all the lovelier energies\u201d (Osborn 1). Segundo Osborn, Masefield, e \u00a0v\u00e1rios outros indiv\u00edduos que o primeiro menciona subsequentemente na sua obra, a imagina\u00e7\u00e3o tem poder brilhante; atrav\u00e9s dela, qualquer pessoa pode construir mundos inteiros que at\u00e9 podem influir no mundo real, como nota Osborn. Levando isto em conta, a disparidade entre a narrativa e os blogs n\u00e3o deveria ser uma surpresa. Salvo a inspira\u00e7\u00e3o que eu ganhei do material que eu li sobre os Guajajara, e todos os fatos que acompanharam esta pesquisa, eu criei o mundo em que o Maur\u00edcio vive. Este sentimento de posse do projeto (n\u00e3o das culturas representadas nele) talvez tenha sido o catalisador principal do conforto que eu senti neste processo criativo. Embora Gumbrecht insiste que os blogs s\u00e3o uma esp\u00e9cie de \u201cprotected space,\u201d eu senti este efeito at\u00e9 mais com este projeto narrativo; neste caso, entretanto, n\u00e3o foi a minha audi\u00eancia que me deixou ficar confort\u00e1vel neste espa\u00e7o, sen\u00e3o a forma generativa atrav\u00e9s da qual eu interagi com o povo Guajajara.<\/p>\n<p>Outra disparidade entre estas duas formas escritas envolve a no\u00e7\u00e3o de tempo que as duas estabelecem atrav\u00e9s das suas palavras. A temporalidade dos blogs, por um lado, parece fundamentalmente retrospectiva; todas as entradas que eu escrevi, ao menos, possuem o mesmo olhar enfocado no passado. O blog sobre a Sonia Guajajara e os seus esfor\u00e7os \u00e9 um exemplo interessante deste fen\u00f4meno. Nessa entrada do blog, eu discuto a divis\u00e3o entre homem e mulher na cultura Guajajara, enfatizando a desigualdade que existe em favor do primeiro grupo. Eu concluo este post com uma hip\u00f3tese, considerando a possibilidade de que outras mulheres deste povo sigam o mesmo caminho que a Sonia Guajajara, que tem tido uma carreira pol\u00edtica fascinante e aparentemente sem precedente. Mas, inevitavelmente, tudo que eu mencionei nesta entrada estava contextualizado no passado. Se a Sonia n\u00e3o se tivesse candidatado para a vice-presid\u00eancia, por exemplo, ou se n\u00e3o houvesse uma hist\u00f3ria de disparidades sociais baseadas em sexo nesta comunidade, esta entrada n\u00e3o existiria; ela teria sido escrita sobre algum outro tema, sobre o qual haveria suficiente material para continuar a conversa. Parece, ent\u00e3o, que a estrutura do blog est\u00e1 intrinsecamente ligada ao passado, uma conex\u00e3o que facilita a conversa sobre o presente e a conjectura sobre o futuro.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, a temporalidade narrativa \u00e9 substancialmente diferente; enquanto os blogs tendem a se basearem no passado, as narrativas semi-ficcionais parecem estar completamente separadas do tempo. Na minha s\u00e9rie de contos, eu empreguei a estrutura de um di\u00e1rio pessoal para asseverar o que a minha personagem, Maur\u00edcio, estava vivendo no momento. Apesar de constitu\u00edrem uma reflex\u00e3o sobre experi\u00eancias j\u00e1 passadas, ele continua vivendo no contexto em que elas aconteceram; Mauricio conta os eventos do primeiro cap\u00edtulo, por exemplo, logo no come\u00e7o do dia seguinte, minimizando o espa\u00e7o constru\u00eddo entre passado e presente. Ao mesmo tempo, este formato de di\u00e1rio contribui at\u00e9 mais para este efeito de tir\u00e1-lo do tempo, enquadrando as suas experi\u00eancias como uma corrente de extens\u00e3o indefinida, terminando s\u00f3 quando as suas reflex\u00f5es terminarem tamb\u00e9m. No seu livro, <em>\u201cTravellers\u2019 Tales: Narratives of Home and Displacement<\/em>,\u201d George Robertson considera a temporalidade narrativa em uma perspectiva parecida, mas sutilmente diferente:<\/p>\n<p><em>Narrative\u2014as a structure of development, growth and change\u2014the acquisition of knowledge and solution of problems\u2014is conceived as physical process of movement, of disruption, negotiation and return. The movement beyond liminality is marked by a literal movement outside the integrated regimes of a time and space. The \u2018trip\u2019 constitutes a lapse in the regular rhythms of mundane existence, it leads to a place where time \u2018stands still\u2019 or is reversed into a Utopian space of freedom, abundance, and transparency<\/em> (Robertson 197)<em>.<\/em><\/p>\n<p>Segundo Robertson, ent\u00e3o, as aventuras de Maur\u00edcio e o modo com que elas levam ao seu crescimento e matura\u00e7\u00e3o constituem um afastamento f\u00edsico dos limites temporais cotidianos. Na realidade, o leitor sabe quando a personagem entrou nesta comunidade (29 de novembro de 2018, segundo o primeiro cap\u00edtulo), mas quem sabe se ele acabou por ir-se embora? Na narrativa, n\u00e3o existem os \u201c<em>regular rhythms of mundane existence<\/em>;\u201d o mundo ficcional possibilita qualquer evento, especialmente quando um autor deixa qualquer tipo de ambiguidade na \u201cconclus\u00e3o\u201d da sua obra (da mesma forma que a audi\u00eancia nunca v\u00ea Maur\u00edcio voltando para casa, por exemplo). Contudo, esta discuss\u00e3o serve para mostrar que a quest\u00e3o temporal na escrita narrativa ocupa um espa\u00e7o at\u00e9 mais intersticial e muito menos concreto de que nos blogs.<\/p>\n<p>De certa forma, o tipo de tempo inerente \u00e0 narrativa compara-se com o conceito de tempo em algumas tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Richard J. Perry nota no seu libro, \u201c<em>From Time Immemorial: Indigenous Peoples and State Systems<\/em>,\u201d que muitos estados internacionais reconhecem que a maioria dos povos ind\u00edgenas \u201c<em>have been there &#8230; from time immemorial<\/em>\u201d (Perry 8). Enquanto os Guajajara, por exemplo, vivem no presente, muitas das suas tradi\u00e7\u00f5es ainda mant\u00eam elementos em comum com os rituais dos seus antepassados distantes; o momento em que povos como este foram \u201cdescobertos\u201d (por falta de uma palavra melhor) pelos europeus, ent\u00e3o, representa uma esp\u00e9cie de conflito cronol\u00f3gico. \u00c9 uma cena popular e frequentemente representada em filmes ou livros: um grupo de exploradores ou antrop\u00f3logos encontra com uma tribo ind\u00edgena, desconectado do ritmo e da temporalidade ocidental aos quais o primeiro grupo adere. De qualquer forma, estes encontros iniciais e as subsequentes misturas culturais servem para tirar estes povos do \u201c<em>Utopian space<\/em>\u201d que eles preservaram at\u00e9 este ponto, for\u00e7ando-os a se adaptarem aos \u201c<em>rhythms of mundane existence\u201d<\/em> que Robertson deprecia.<\/p>\n<p>Interessantemente, as pr\u00f3prias narrativas ind\u00edgenas, outra rel\u00edquia do seu passado perdido, parecem construir o mesmo tipo de temporalidade que eu observei nos meus contos. Grupos como os Guajajara, os Krenak, e os Yanomami t\u00eam culturas orais riqu\u00edssimas, e a maior parte do seu conte\u00fado \u00e9 um conjunto de contos e mitos sobre a sua hist\u00f3ria e aquelas figuras que a possibilitaram. Por um lado, o sujeito destas hist\u00f3rias em si est\u00e1 em linha com a liminaridade discutida por Robertson acima. Em <em>A queda do c\u00e9u<\/em>, por exemplo, Davi Kopenawa passa um cap\u00edtulo inteiro falando sobre os <em>xapiri<\/em>, \u201cesp\u00edritos\u201d com os quais os xam\u00e3s interagem na vida di\u00e1ria (Kopenawa 63). Segundo Kopenawa, estes seres s\u00e3o uma presen\u00e7a constante; est\u00e3o sempre influenciando o mundo f\u00edsico hoje em dia, da mesma forma que atuaram na concep\u00e7\u00e3o da tribo Yanomami. Ao mesmo tempo, entretanto, o ato de contar estas hist\u00f3rias a outra pessoa contribui de uma forma mais profunda para esta intersticialidade temporal. Atrav\u00e9s do recontar estes contos narrativos, o xam\u00e3 converte o passado em uma nova inst\u00e2ncia do presente; com cada audi\u00eancia nova, ele entra neste espa\u00e7o liminar de novo, recriando esta cena ut\u00f3pica hoje em dia. De certa forma, n\u00f3s, se escrevemos narrativas sobre a sua hist\u00f3ria, tentamos fazer a mesma coisa. Sem querer, a minha narrativa acabou por sublinhar aqueles elementos da cultura Guajajara que eu achei mais fascinantes e que eu gostaria que o resto do mundo apreciasse tamb\u00e9m. Como antes, entretanto, sempre temos que considerar a linha que nos separa dessa comunidade; o mecanismo central de comunicar a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 parecido com o ind\u00edgena, mas, ao fim do dia, a perspectiva da qual devemos construir as narrativas deve ser a nossa.<\/p>\n<p>Assim, estas duas formas de escrever oferecem maneiras diversas de abordar as tribula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, algumas mais profundas que outras. Mas, de qualquer forma, ainda existem alguns riscos com estes m\u00e9todos, o mais perigoso sendo o potencial do escritor abafar a voz ind\u00edgena, dele sobrescrever as suas experi\u00eancias com as suas pr\u00f3prias inclina\u00e7\u00f5es. Ao longo desta aula, entretanto, n\u00f3s observamos v\u00e1rias maneiras atrav\u00e9s das quais este risco poder ser combatido. O primeiro passo sempre deve ser o mero reconhecimento deste perigo. Na minha narrativa inicial, eu escolhi o conte\u00fado com muito cuidado; como mencionei acima, eu queria que o leitor soubesse onde estava a linha separando realidade e fic\u00e7\u00e3o, entre fato e aquilo que eu constru\u00ed. Mesmo assim, houve momentos em que eu assumi a voz de personagens ind\u00edgenas de uma forma um pouco desconfort\u00e1vel, evid\u00eancia da presen\u00e7a deste perigo. Outra forma mais direta de combat\u00ea-lo \u00e9 o ato de modificar a sua pr\u00f3pria perspectiva para concordar com o ponto de vista daqueles indiv\u00edduos que o autor quer representar. Esta foi a estrat\u00e9gia que muitos dos nossos convidados adotaram. Vinicius Furuie, por exemplo, conheceu alguns membros da popula\u00e7\u00e3o ribeirinha para melhor escrever sobre as suas condi\u00e7\u00f5es, enquanto S\u00e9rgio Bairon levou esta ideia ao extremo e p\u00f4s a c\u00e2mara nas m\u00e3os do ind\u00edgena, encorajando-lhes a contarem a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. De qualquer maneira, estas pessoas encontraram formas de superar este perigo na sua pesquisa sobre popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas (ou outros povos tangenciais), ent\u00e3o, a mesma possibilidade existe para n\u00f3s tamb\u00e9m. Esta aula ajudou-me a reconhecer que, apesar de sermos apenas estudantes situados em uma universidade a quase 4.000 milhas de dist\u00e2ncia destes povos, n\u00f3s temos a ag\u00eancia para ajud\u00e1-los. Obviamente, \u00e9 improv\u00e1vel que os nossos escritos alterem a opini\u00e3o de Bolsonaro, por exemplo, mas o fato de n\u00f3s estarmos a estudar este tema e estas injusti\u00e7as talvez sirva para outros grupos fazerem o mesmo. Com alguma sorte, o material inclu\u00eddo neste curso algum dia pode se transformar em teses universit\u00e1rias, em projetos de servi\u00e7o, ou talvez at\u00e9 na funda\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o para contribuir com a quest\u00e3o ind\u00edgena de uma forma mais direta. Ao fim do dia, os esfor\u00e7os que n\u00f3s fazemos agora, embora sejam pequenos (um blog cada semana, uma narrativa fervorosa tr\u00eas vezes ao semestre), t\u00eam o potencial para resultar em efeitos monumentais. Com muito esfor\u00e7o e bastante discri\u00e7\u00e3o, n\u00f3s podemos contribuir \u00e0 nossa pr\u00f3pria maneira, e eu comecei com um blog e um di\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Obras Citadas<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/Povo:Guajajara\">&#8220;Guajajara.&#8221; Povos Ind\u00edgenas do Brasil<\/a>. Accessed January 10, 2019.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Gumbrecht, Michelle. \u201c<a href='https:\/\/pdfs.semanticscholar.org\/0176\/93db2969b04739b04a510f78f7eeb972b082.pdf'>Blogs as Protected Space.<\/a>\u201d <em>SemanticScholar, <\/em>2004,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Kopenawa, Davi, et al. <em>A Queda Do c\u00e9u: Palavras De Um xam\u00e3 Yanomami<\/em>. Companhia Das Deltras, 2016.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Osborn, Alex F. <em>Applied Imagination: Principles and Procedures of Creative Problem-Solving<\/em>. Creative Education Foundation, 2001.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Perry, Richard John. <em>From Time Immemorial: Indigenous Peoples and State Systems<\/em>. University of Texas Press, 2010.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Robertson, George. <em>Travellers Tales: Narratives of Home and Displacement<\/em>. Routledge, 1994.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Schiano, Diane J., et al. \u201cBlogging by the Rest of Us.\u201d Extended Abstracts of the 2004 Conference on Human Factors and Computing Systems \u2013 CHI -4, 2004, doi:10.1145\/985921.986009.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201c<a href=\"https:\/\/www.survivalinternational.org\/articles\/3540-Bolsonaro\">What Brazil\u2019s President, Jair Bolsonaro, Has Said about Brazil\u2019s Indigenous Peoples.<\/a>\u201d <em>Survival International<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201c<a href=\"http:\/\/www.geocities.ws\/indiosbr_nicolai\/guajajara2.html\">Vocabul\u00e1rio Guajajara,<\/a>\u201d L\u00ednguas Ind\u00edgenas Brasileiras, accessed January 10th, 2019.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Blogs, Di\u00e1rios, e o Povo Guajajara: Paulo Fraz\u00e3o Quando eu estava a escolher minhas aulas para este semestre, eu queria passar esses tr\u00eas meses estudando algo diferente, ficando cara a cara com uma perspetiva ou ponto de vista que eu nunca tivesse considerado antes. Deste modo, a aula da Professora Librandi, intitulada \u201cTopics in Brazilian<\/p>\n<p><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/outros-textos\/uma-reflexao-sobre-metodos-escritos-em-um-contexto-indigena\/\">Continue Reading<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":800,"featured_media":0,"parent":669,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[13],"class_list":["post-737","page","type-page","status-publish","hentry","tag-guajajara","post-preview"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/737","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/800"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=737"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/737\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":891,"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/737\/revisions\/891"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/669"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=737"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=737"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=737"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}