{"id":694,"date":"2019-01-20T22:20:07","date_gmt":"2019-01-20T22:20:07","guid":{"rendered":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/?page_id=694"},"modified":"2019-01-20T22:24:11","modified_gmt":"2019-01-20T22:24:11","slug":"694-2","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/outros-textos\/694-2\/","title":{"rendered":"Genoc\u00eddio e Progresso: Um Coment\u00e1rio Sobre Belo Monte"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><strong>Genoc\u00eddio e Progresso: Um Coment\u00e1rio Sobre Belo Monte<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">por Bruno Fernandes<\/p>\n<p>19 Outubro 2019<\/p>\n<p>(Texto escrito a partir da leitura de Eliane Brum, \u201cBelo Monte: a anatomia de um etnoc\u00eddio.\u201d Entrevista com a procuradora Thais Santi)<\/p>\n<p>Quando Thais Santi cita a fil\u00f3sofa Hannah Arendt, ela constr\u00f3i o contexto pol\u00edtico que resultou na transforma\u00e7\u00e3o da volta grande do rio Xingu numa usina hidrel\u00e9trica como o \u201cmundo em que tudo \u00e9 poss\u00edvel,\u201d e onde a lei foi suspensa. Embora a compara\u00e7\u00e3o com a Alemanha nazista dos anos 30 e 40 seja quase um exagero \u00e0 primeira vista, quando n\u00f3s nos aproximamos da situa\u00e7\u00e3o dos moradores, os ind\u00edgenas e ribeirinhos em particular, n\u00f3s conclu\u00edmos que Belo Monte foi um ato desnecess\u00e1rio, f\u00fatil, e violento. Belo Monte tem sua origem na ditadura militar dos anos 70 e 80, que suspendeu liberdades civis e travou o sistema de justi\u00e7a, e apesar de ter sido constru\u00edda e inaugurada pela Dilma Roussef e o governo do PT em 2016, \u00e9 precisamente nessa hist\u00f3ria anti-democr\u00e1tica que precisamos situar o projeto.<\/p>\n<p>Apesar da sua inefic\u00e1cia, produzindo apenas 30% de sua capacidade total, e o risco ambiental apresentado pelas inunda\u00e7\u00f5es causadas pela barragem, o governo brasileiro decidiu seguir com a constru\u00e7\u00e3o, enriquecendo empreiteiros como Odebrecht, Camargo Corr\u00eaa, Andrade Gutierrez, e, claro, a Norte Energia. O projeto p\u00f4s em risco o modo de vida da popula\u00e7\u00e3o mesti\u00e7a dos ribeirinhos que antes se sustentavam atrav\u00e9s da pesca e o aviamento\u2013a economia informal baseada em d\u00edvidas e na troca de produtos alimentares no rio Xingu. Segundo o artigo de Eliane Brum, \u201cVidas barradas de Belo Monte,\u201d com a constru\u00e7\u00e3o de Belo Monte, o ribeir\u00e3o orgulhoso tornou-se o \u201cpobre urbano\u201d sem qualquer possibilidade de arranjar emprego em Altamira. Ant\u00f3nio das Chagas, um dos 40 mil novos residentes que foram parar na rua depois da inaugura\u00e7\u00e3o de Belo Monte, reflete sobre o vazio da sua nova vida, \u201cNo rio eu sei tudo, na rua eu n\u00e3o sou nada. Quem vai dar um emprego pra mim?\u201d Aqui, os ribeirinhos n\u00e3o tiveram qualquer indenizac\u00e3o por parte da Energia Norte e o governo federal, e n\u00e3o tiveram como evitar a pobreza urbana, oprimidos n\u00e3o s\u00f3 pelo desemprego, mas tamb\u00e9m pelos custos altos de eletricidade e a falta de \u00e1gua pot\u00e1vel.<\/p>\n<p>O outro grupo que foi significativamente impactado pela constru\u00e7\u00e3o da usina foram os ind\u00edgenas da volta grande e do Xingu abaixo, que, apesar de receberem objetos e alimentos por parte da Energia Norte, foram mais prejudicados que beneficiados. Eliane Brum no seu encontro com o cacique Xikrin dos Arawet\u00e9 mostra que as \u201cprendas\u201d de refrigerantes, barcos, e biscoitos oferecidas pela Norte Energia tinham o prop\u00f3sito de adoecer e dividir os ind\u00edgenas e destruir seu modo de vida. A entrada de produtos consumistas e alimentos cheios de a\u00e7\u00facar exacerbou problemas de diabetes e hipertens\u00e3o em comunidades ind\u00edgenas que conseguiam se sustentar perfeitamente bem antes de Belo Monte com a pesca e a farinha de coco-baba\u00e7u. Os objetos desnecess\u00e1rios passaram a ser vendidos no mercado negro, deixando l\u00edderes ind\u00edgenas com dinheiro no bolso causando divis\u00f5es com os pescadores da ribeira e suas pr\u00f3prias comunidades que j\u00e1 n\u00e3o tinham qualquer incentivo para praticar a agricultura.<\/p>\n<p>Eu proponho que estes resultados negativos n\u00e3o vieram apenas por causa do descuido da Norte Energia, mas foram criados com a inten\u00e7\u00e3o de dividir a ribeira, deixando o ribeir\u00e3o a viver sem dignidade na cidade e o ind\u00edgena doente e cheio de coisas que nunca precisou. Quando consideramos o fracasso tecnol\u00f3gico da usina e a persist\u00eancia do governo brasileiro em n\u00e3o s\u00f3 completar o projeto mas celebr\u00e1-lo como um sucesso nacional, conseguimos esclarecer a \u201canatomia de um genoc\u00eddio\u201d que ocorreu em Belo Monte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Genoc\u00eddio e Progresso: Um Coment\u00e1rio Sobre Belo Monte por Bruno Fernandes 19 Outubro 2019 (Texto escrito a partir da leitura de Eliane Brum, \u201cBelo Monte: a anatomia de um etnoc\u00eddio.\u201d Entrevista com a procuradora Thais Santi) Quando Thais Santi cita a fil\u00f3sofa Hannah Arendt, ela constr\u00f3i o contexto pol\u00edtico que resultou na transforma\u00e7\u00e3o da volta<\/p>\n<p><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/outros-textos\/694-2\/\">Continue Reading<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":800,"featured_media":0,"parent":669,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[22,31,32],"class_list":["post-694","page","type-page","status-publish","hentry","tag-belo-monte","tag-eliane-brum","tag-thais-santi","post-preview"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/694","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/800"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=694"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/694\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":698,"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/694\/revisions\/698"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/669"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=694"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=694"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/commons.princeton.edu\/indigenous-brazil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=694"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}